O que antes parecia impensável no “berço moderno da democracia” agora se desenrola diante dos olhos do mundo: o governador republicano do Texas, Greg Abbott, ordenou a prisão de mais de 50 deputados democratas que deixaram o estado para impedir a votação de um projeto de redesenho dos distritos eleitorais. A proposta, considerada por especialistas um caso extremo de gerrymandering, daria aos republicanos um controle ainda mais sólido do mapa político — e colocaria em risco o equilíbrio eleitoral nos EUA.
O gesto de Abbott não é apenas um ato administrativo; é um recado autoritário. Ao usar ordens de prisão, multas pesadas e ameaças judiciais contra a oposição, o Texas adota práticas típicas de regimes que sufocam o pluralismo político. Sob o argumento de “manter a ordem legislativa”, o que se vê é a criminalização de uma tática legítima da minoria parlamentar: a obstrução por ausência.
O método: sufocar para vencer
A estratégia republicana é clara: forçar presença pelo medo. Ao mesmo tempo, redesenha-se o mapa eleitoral de forma tão enviesada que o voto popular perde peso. Essa distorção não é novidade no Texas — já houve fugas de parlamentares em 2003 e 2021 — mas nunca a resposta foi tão agressiva e coercitiva.
Um padrão global
A cartilha seguida pelo Texas não é inédita. É a mesma usada por Orbán na Hungria, Maduro na Venezuela, Erdogan na Turquia e Putin na Rússia:
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Mudar as regras do jogo durante a partida;
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Deslegitimar e criminalizar a oposição;
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Controlar o resultado antes do voto ser contado.
No papel, continua havendo eleições. Na prática, o eleitor é convidado a participar de um jogo com resultado previsível.
Por que isso importa para todo o país
O Texas não é qualquer estado. É uma potência econômica, cultural e eleitoral. Se essa tática prosperar, servirá de modelo para outros estados inclinados ao autoritarismo partidário. E, ao nível nacional, abre caminho para que a democracia americana se transforme numa autocracia eleitoral, onde o ritual do voto é mantido apenas para legitimar o poder já consolidado.
O fio da navalha
Os Estados Unidos se orgulham de exportar o “modelo democrático” para o mundo. Mas, se não reagirem a movimentos como o do Texas, correm o risco de se tornar apenas mais um país que mantém eleições para inglês ver, enquanto o poder se fecha sobre si mesmo. A democracia americana está no fio da navalha — e o Texas pode ser o primeiro corte profundo.

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