Eduardo Bolsonaro (PL-SP) confessou publicamente que soube com antecedência da decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A declaração, feita durante participação no podcast Inteligência Ltda. nesta segunda-feira (21), coloca o filho de Jair Bolsonaro como suspeito de ser pivô de operação bilionária de compra e venda de dólares realizada poucas horas antes do anúncio oficial da medida. A suspeita é de insider trading, termo do mercado financeiro que se refere aa uso de informação privilegiada para obter lucros no mercado financeiro.
O caso, revelado por Spencer Hakimian, da gestora norte-americana Tulu Capital, é alvo de um inquérito aberto pela Polícia Federal (PF), por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a denúncia, entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões em dólares foram comprados no dia 9 de julho às 13h32 (horário da Costa Leste dos EUA) e revendidos com lucro após a fala de Trump às 16h19, quando o real despencou. Com o uso de alavancagem, os ganhos podem ter chegado a 50% em apenas três horas.
A revelação de Eduardo de que já conhecia a medida antes da divulgação oficial fortalece a hipótese de que ele teria sido o elo no vazamento de informações confidenciais a operadores do mercado.
Moraes manda PF investigar elo entre política e lucro cambial
A abertura do inquérito foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). O objetivo é investigar se houve crimes financeiros, formação de organização criminosa e uso indevido de informação sigilosa. Segundo a AGU, “os fatos já em apuração estão além dos ilícitos penais relacionados à obstrução da Justiça, alcançando possíveis ganhos financeiros ilícitos decorrentes da criação deliberada de instabilidade econômica”.
Em sua decisão, Moraes autorizou o compartilhamento de informações com o Banco Central, a Comissão Mobiliária de Valores (CVM) e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), além de quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático dos envolvidos. A apuração busca identificar se Eduardo Bolsonaro repassou antecipadamente a decisão da Casa Branca a grupos com capacidade de movimentar bilhões no mercado de câmbio brasileiro.
A própria AGU reforça que a atuação de Eduardo nos Estados Unidos – onde se reuniu com aliados de Trump – foi parte de uma ofensiva internacional para coagir o STF. Segundo a petição, “instrumentos comerciais internacionais foram utilizados como mecanismo de pressão sobre o Judiciário”, configurando possível atentado à soberania nacional.
Confissão comprometedora e reação suspeita
Durante o podcast, Eduardo admitiu que ele e o influenciador Paulo Figueiredo discutiram o tarifaço com autoridades norte-americanas antes da medida ser anunciada. Disse, inclusive, que apoiou a aplicação das tarifas, apelidando-as de “Tarifa-Moraes”, em referência ao ministro do STF. A confissão contraria frontalmente a versão de Jair Bolsonaro, que negou qualquer envolvimento com as sanções. “Querem colar na gente os 50%. Mentira”, disse o ex-presidente, atualmente sob medidas cautelares impostas pelo STF, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e o recolhimento domiciliar.
O caso se agravou após o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentar requerimento à Comissão de Relações Exteriores da Câmara pedindo a convocação de Eduardo para explicar sua participação nas tratativas com o governo Trump.
As suspeitas aumentaram ainda mais com um tuíte do vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), irmão de Eduardo, que tentou desqualificar a investigação conduzida por Moraes. “A velha pesca probatória?”, ironizou, sugerindo que os lucros bilionários obtidos na operação seriam mera coincidência.

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