Texto de Veronyka Gimenes @travahacker
A imagem do governador Tarcísio Freitas erguendo a bandeira de Israel na Marcha para Jesus, sob o lema “Deus Forte”, é uma síntese perversa do nosso tempo: um cristianismo sequestrado por projetos autoritários, racistas, misóginos e colonialistas. Em tempos em que a fé é usada para justificar ódio, repressão e armamento, é preciso ser contra o cristianismo que está posto, esse que crucifica e não o que liberta.
Jesus viveu na região hoje chamada Palestina. Era um homem pobre, judeu, camponês, perseguido por desafiar as elites religiosas e o Império Romano. Foi executado pelo Estado por anunciar uma boa nova aos pobres, por andar com prostitutas, doentes, dissidentes. Nunca carregou bandeira de império algum. Usar a bandeira de Israel, sob Netanyahu — denunciado por crimes de guerra, apartheid e colonialismo militar — é cuspir na face do Cristo histórico.
O lema da marcha, “Deus Forte”, revela mais que fé: revela uma teologia do poder, do castigo e do domínio. Um Deus que fortalece o braço armado do Estado, que se senta à mesa dos ricos e fecha os olhos aos genocídios — tanto o do povo palestino quanto o do povo preto e periférico nas favelas brasileiras. É uma fé com farda, bala e mercado. Um “Deus forte” para os que têm poder, e um inferno garantido para quem ousa existir fora da norma.
Jesus não marcharia ao lado da polícia militar. Não aplaudiria exércitos de ocupação. Estaria entre as travestis expulsas dos templos, entre as pessoas palestinas bombardeadas, entre as pessoas negras assassinadas, entre as mulheres silenciadas. Não há salvação possível em um cristianismo que protege quem mata e condena quem ama.
Não basta dizer “Jesus te ama” com a mão suja de sangue. O amor que não confronta estruturas de morte é só mais uma engrenagem do sistema. A verdadeira atitude cristã hoje é resistir ao lado das pessoas oprimidas pelo sistema e enfrentando os “deuses fortes” deste mundo.

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